Cinema Críticas

“Silêncio” expõe com maestria os malefícios da perseguição religiosa

CRÍTICA

Em 1966, o escritor japonês Shusaku Endo concebeu ao mundo sua obra-prima chamada “Silêncio”, que se aprofunda na questão da perseguição aos jesuítas europeus em missão de evangelização no país e aos Kakure Kirishitans (Cristãos Ocultos), que eram japoneses convertidos à fé católica, em meados do século XVII. O premiado livro despertou o interesse do aclamado diretor norte-americano católico Martin Scorsese em 1997, enquanto terminava as filmagens de “Kundun”, sua cinebiografia sobre a vida do 14º Dalai Lama. Entre idas e vindas, incluindo processos judiciais e intermináveis adiamentos, o folclórico filme de Scorsese, finalmente torna-se realidade 30 anos após a ideia de adaptação às telas, e chegou aqui no Brasil na última quinta-feira (09).

A trama nos leva a um Japão ainda abalado pela Rebelião de Shimabara, que entre 1637 e 1638 vitimou diversos camponeses cristãos pelas mãos do xogunato regente, tornando assim a prática do Cristianismo ilegal no país. Neste cenário pós-rebelião, acompanhamos a trajetória dos padres jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), que partem em missão para desvendar o paradeiro do veterano padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), que teria desaparecido após ter cometido apostasia sob tortura. Em solo japonês, eles são acompanhados por diversos católicos nativos que vivem escondidos em pequenos vilarejos mantendo sigilo sobre a fé proibida que comungam, temendo pelas ações do chamado “Inoue-san”, um samurai inquisidor que ordena a captura e tortura de cristãos para que os mesmos reneguem a própria fé em atos de apostasia, como pisar em imagens talhadas ou até mesmo cuspir em crucifixos; e em caso de permanência na fé, os capturados são torturados e mortos lentamente, tendo seus corpos cremados para que não haja possibilidade de receberem um velório propriamente cristão.

O diretor nos faz perceber com sutileza os efeitos das evangelizações em civilizações distantes e os choques culturais que são normais em ocasiões como essa, tendo como resultado diversas distorções religiosas, como vagas ideias dos conceitos de Deus e Paraíso, grande apego à imagens de crucifixos e o deslumbre gigantesco frente à presença de padres, que há muito já haviam desistido de imigrar para aquelas terras.

                                “Nós pedimos por essa missão”

Quanto à estética do filme, Scorsese usou um jogo de cores frias e contou com a presença da neblina e do vapor das termais japonesas (Onsen), que trouxeram uma beleza ímpar ao longa e uma estranha sensação de paz e abandono em meio ao caos. Além disso, o diretor explorou o conceito do silêncio em si, seja a opressão sofrida pela fé, o “silêncio” de Deus perante ao sofrimento dos personagens retratados ou até mesmo a quietitude fúnebre de vilarejos destruídos pelas ações do ditatorial xogunato. Para isso, em conjunto ao longa, o diretor utilizou uma trilha sonora composta e regida pela dupla Kim Allen Kruge e Kathryn Kluge, que fez uso de instrumentos locais e abusou apropriadamente do som de cigarras e grilos, para remeter ao ambiente bucólico no qual se passa a película. Em meio à tanto empenho e qualidade de alto nível, só nos resta dizer que o filme foi o mais injustiçado da última edição do Oscar, tendo apenas uma indicação (Melhor Fotografia).

Voltando ao cerne da obra, a questão que mais entristece sobre a mesma é que o sofrimento não morreu junto com os injustiçados, ele já era conhecido por outras civilizações e ainda está mais latente do que nunca. Podemos traçar um paralelo entre este cenário abordado de perseguição religiosa no século XVII com as inquisições impostas pela própria Igreja Católica em toda a Europa, as Cruzadas durante os séculos XIII e XIV, os conflitos intermináveis entre Israel e Palestina na Faixa de Gaza e as ações contemporâneas do Estado Islâmico, que vem fazendo diversas vítimas em prol da imposição religiosa à qualquer custo. Quando nos deparamos com essas situações que só trazem sangue e dor aos seus iguais, sempre nos pegamos à pensar: “será que não há um jeito de entender que simplesmente não há UMA verdade absoluta?”, “será que não é possível conviver com diferenças ideológicas, sem que o outro incomode com suas próprias escolhas?”, “será que não é possível simplesmente vivermos em paz, já que tudo em que acreditamos sempre pega, acima de tudo, a paz?”.

Não contando toda a barbárie e agonia que acompanham essas jornadas de proselitismo brutal, qual a resposta que obtemos, e que infelizmente parecer ser a única que iremos obter por muito tempo sobre nossas válidas considerações para melhorar esse cenário?

Silêncio.